01/Mar. (2017) - A mulher e o dom de amar

01/Mar. (2017) - A mulher e o dom de amar

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Reconhecer, respeitar e aprender mais com elas para construirmos um mundo mais justo e humano.
 
Imaginar um mundo sem a mulher é experimentar, ainda que por um breve instante, um mundo desorganizado, sem cor, sem paixão, um caos completo. Se podemos sobreviver sem elas ou não, isso é uma mera questão de ponto de vista. Contudo, viver sem elas, definitivamente, é viver uma vida medíocre, sem graça, sem cumplicidade e amor. Portanto, vazia.
E por falar em amor, não duvidamos um só segundo que a mais autêntica e pura expressão de amor é sintetizada na palavra “mãe”. E assim fica fácil compreender o porquê do privilégio da gestação e da amamentação serem uma função, exclusivamente, feminina. Resta apenas saber se o privilégio de amar veio em função da maternidade ou se a maternidade veio em função da capacidade de amar. Mas uma coisa é certa: está manifestado no gênero feminino e no seu universo um misterioso dom divino.
E quando falamos em “mistério”, falamos da palavra que mais se aproxima da melhor definição do que é ser mulher. Um mistério impossível de ser desvendado, e que já levou tantos homens à loucura e outros, pior, ao erro grotesco e pretencioso de querer definir o indefinível. Melhor aprender, desde cedo, a “ouvir” a mulher em suas infinitas formas de comunicação e “senti-la” em suas infinitas formas de amar. Melhor aprender a se entregar a ela.
Agora, sendo mais pontual no que se refere ao quanto estamos correspondendo à mulher e a sua importância para o Brasil, somos confrontados com uma realidade que, no mínimo, nos envergonha.
A falta do reconhecimento e da valorização é tão grande que, se enumeradas, não haveria espaço físico, nem mesmo em dez informativos como este. Do assédio sofrido, diariamente, por centenas de mulheres que dependem do transporte público, passando pela impunidade diante das ameaças e terminando pela precariedade do atendimento à saúde, o atual “respeito” à mulher é, no mínimo, uma mentira deslavada que insistentemente tenta convencer uma sociedade inteira a acreditar que nossos governantes têm feito muito. Progredimos, é verdade, mas nem tanto assim.
O assédio praticado por indivíduos miseráveis (na alma), a ameaça praticada por “apaixonados” (por si só) e a precariedade da saúde pública, nos leva a acreditar que a culpa é toda do governo. Com certeza, se houvesse mais investimento em mamógrafos do que em estádios de futebol, a mulher estaria de fato sendo mais respeitada e amada neste país. Contudo, a culpa não é só do governo, mas de toda a sociedade.
Ainda remuneramos mal as mulheres, ainda somos uma sociedade machista e deselegante (visivelmente, já é uma raridade alguém se levantar e dar seu lugar a uma mulher num evento qualquer ou em um ônibus lotado).
Ao impormos, através da mídia e de forma absurdamente insistente, padrões de beleza inatingíveis, escravizamos as mulheres a viver um mundo de consumo desenfreado e de constante busca pela juventude eterna; esse o maior dos erros. Ela é linda aos 5, 25, 95... ela é linda sempre. Só precisa que a façamos acreditar nessa verdade.
Aparentemente, diante de tamanho atraso, estamos no meio do insolúvel no que se refere ao reconhecimento e valorização da mulher. Mas há uma solução, simples por sinal. Bastaria que fôssemos corajosos o suficiente para nos entregarmos ao universo feminino e humildemente aprendêssemos a amar com elas. Um mundo melhor é um mundo mais justo, um mundo mais justo é um mundo cheio de amor.
Concluindo, só é possível construirmos um mundo melhor para todos, se a mulher for cuidadosamente observada, verdadeiramente respeitada e intensamente amada.
Edvaldo Ranzani
 


01/Jan. (2017) - Ola Ana

 
Sobre como a vida se resume nos instantes.
 
Ontem eu tive um sonho. Um daqueles sonhos enigmáticos que vez ou outra nos surpreendem, se não pela intensidade dos sentimentos que provocam, ao menos, pela capacidade que têm de nos fazer pensar e pensar sobre o seu significado.
Eu me vi observando um artista que lentamente pintava um mosaico. Usava, como pano de fundo, uma enorme tela branca, que de tão branca que era ofuscava-me, por vezes, a visão do seu todo, me limitando a ver apenas uma ou outra parte por vez.
Havia silêncio e como em um filme mudo, tudo resumidamente era infinito dentro das infinitas emoções que esse artista ousava expor.
O tempo ia passando, como sempre faz, e aos poucos, na tela, iam surgindo pontos de todas as cores e luminosidades. Alguma coisa estava surgindo, sem que se fosse possível definir forma ou aparência.
O artista era ágil muitas vezes. Em outras, vagaroso em demasia. Era sutil, às vezes brusco, era menino, às vezes, velho. Assim, obstinado em construir sua obra, dividido entre ânimos e desânimos, venturas e desventuras, uma grande imagem ele ia compondo. Essa tela era indefinida em forma, mas nela havia uma capacidade rara em impressionar meu coração, que se servindo do meu olhar, mais e mais mergulhava naquela emoção.
Como não compreendia a obra, me dediquei a decifrar o artista. Observei-o com a mais profunda atenção, não me permitindo ignorar o menor detalhe de seus jeitos e trejeitos. E ao me dedicar ao artista, percebi que, quando ele estava alegre, seus movimentos eram leves, ágeis e na tela pontos coloridos e luminosos iam surgindo às dezenas, milhares. Já quando sua forma de andar mais lembrava um arrastar, quando suas mãos desanimadamente trabalhavam, pontos sem cor e sem luz, quase sombrios, iam surgindo.
Felizmente eram raros esses momentos. Contudo, era mais fácil para mim, perceber a dor do artista nos poucos pontos negros, do que a sua alegria em milhares de pontos luminosos já fixados na tela.
Mas ao contrário de mim, o artista deixava claro sua dedicação ao extremo em celebrar os momentos alegres. Já os tristes eram rapidamente esquecidos e essa talvez fosse a fórmula, para que a tela cada vez mais se tornasse “viva”!
Quanto mais observava a tela, mais apaixonado por ela eu ficava e quanto mais pontos o artista fixava nela, mais completo eu me sentia. Sem me conter, me aproximei e meio receoso toquei aquele homem, que até então se mantinha de costas para mim.  Vi-me então face a face com um rosto conhecido, que de menino a homem foi se revelando para mim em todas as fases da vida, que era, na verdade, a minha própria imagem. Eu estava assim, como nunca estivera antes, frente a frente comigo mesmo.
Minha amiga Ana, a cada momento vivido os homens vão pintando o seu próprio mosaico. No final, o quanto esse mosaico será rico em pontos coloridos, luminosos, intensos em alegria ou não, depende de como nos dedicamos aos simples e bons momentos da vida. Depende da escolha que fazemos a cada instante, em estar alegres ou se entregar ao tão destruidor desanimo.
No fim, celebrar os bons momentos, agora, pode ser a forma mais linda e eficiente de se terminar o mosaico de cada um, de forma a torná-lo ainda mais colorido, vibrante e luminoso.
A vida, Ana, é mais repleta de pontos luminosos do que sombrios. E como o artista fazia, celebrar a vida em seus bons momentos é fixar na eternidade o melhor de cada um de nós, como estão fixadas as estrelas no infinito do céu.
E por falar em estrelas, no mosaico de cada um, os pontos mais brilhantes são os menores, mas são também aqueles divididos e, consequentemente, compartilhados com as pessoas que mais amamos nesta vida.
Edvaldo Ranzani